O
anti-épico da construção de Brasília
Carlos Alberto de Mattos*
“Eu saí da Paraíba, mas a Paraíba não saiu de mim”, costuma dizer Vladimir Carvalho. Foi isso mesmo o que aconteceu quando, depois de ajudar a criar o famoso ciclo do documentário paraibano nos anos 1960, Vladimir mudou-se para Brasília. Levou junto a Paraíba, na forma de um interesse constante pela saga dos candangos, operários imigrantes – em sua maior parte nordestinos – que transformaram os riscos de Niemeyer e Lúcio Costa em realidade concreta.
Incansavelmente durante 18 anos, o cineasta filmou a vida daquela gente que foi sendo empurrada para as cidades-satélite. Ao mesmo tempo, recolheu materiais e testemunhos sobre o lado menos épico da edificação de Brasília. Conterrâneos Velhos de Guerra, lançado em 1990, seria a reunião, depuração e articulação de toda essa coleta.
No coração do filme pulsa uma denúncia até então esquecida nas dobras da história oficial: relatos de maus-tratos, condições de trabalho precárias e muitos acidentes fatais encobertos para não manchar o romantismo da empreitada. E o mais grave: uma sublevação de operários no carnaval de 1959 havia terminado com um massacre executado pela Guarda Especial de Brasília.
A memória (e o esquecimento) desse episódio é tematizada na busca incisiva de “provas”. O diretor leva testemunhas até os locais dos fatos, obtém reiterações em depoimentos distintos, exibe recortes de jornais. O material de arquivo assume a função explícita de “documentos”, ou “comprovantes” das informações veiculadas. Por sua vez, na célebre entrevista em que Oscar Niemeyer indispõe-se com Vladimir e manda interromper a filmagem, o drama contido na investigação histórica se revela de maneira inequívoca diante da câmera.
O filme é polifônico e dialético. Seqüências inteiras se organizam a partir da ressignificação de cenas de arquivo segundo um determinado raciocínio proposto pelo diretor a partir de sua crítica das diferenças de classe. Com freqüência, essas cenas nos chegam subordinadas ao discurso dos peões e, portanto, esvaziadas do sentido oficial que possuíam originalmente. As primeiras imagens da inauguração da cidade, por exemplo, surgem em seguida à entrevista com o primeiro padeiro de Brasília, que não viu a festa porque estava trabalhando (e, além do mais, viria a ficar cego após um acidente). A solenidade aparece como que para restabelecer o que fora negado ao trabalhador.
Assim, Conterrâneos assume também os papéis de crônica do destino dos ex-candangos e meditação sobre o sentimento de exílio. Evocando o estilo da prosódia nordestina, o filme abre espaço tanto para entrevistas e depoimentos, como para poesia, cantoria e contação de “causos”.
Como em toda a obra de Vladimir Carvalho, aqui também o combustível é o afeto do realizador pelos seus personagens.
*Crítico e pesquisador de cinema, autor de livros sobre Walter Lima Jr., Eduardo Coutinho, Carla Camurati, Jorge Bodanzky e Maurice Capovilla. Crítico de O Globo, do site criticos.com.br e autor do DocBlog / Globo Online.
Carlos Alberto de Mattos*
“Eu saí da Paraíba, mas a Paraíba não saiu de mim”, costuma dizer Vladimir Carvalho. Foi isso mesmo o que aconteceu quando, depois de ajudar a criar o famoso ciclo do documentário paraibano nos anos 1960, Vladimir mudou-se para Brasília. Levou junto a Paraíba, na forma de um interesse constante pela saga dos candangos, operários imigrantes – em sua maior parte nordestinos – que transformaram os riscos de Niemeyer e Lúcio Costa em realidade concreta.
Incansavelmente durante 18 anos, o cineasta filmou a vida daquela gente que foi sendo empurrada para as cidades-satélite. Ao mesmo tempo, recolheu materiais e testemunhos sobre o lado menos épico da edificação de Brasília. Conterrâneos Velhos de Guerra, lançado em 1990, seria a reunião, depuração e articulação de toda essa coleta.
No coração do filme pulsa uma denúncia até então esquecida nas dobras da história oficial: relatos de maus-tratos, condições de trabalho precárias e muitos acidentes fatais encobertos para não manchar o romantismo da empreitada. E o mais grave: uma sublevação de operários no carnaval de 1959 havia terminado com um massacre executado pela Guarda Especial de Brasília.
A memória (e o esquecimento) desse episódio é tematizada na busca incisiva de “provas”. O diretor leva testemunhas até os locais dos fatos, obtém reiterações em depoimentos distintos, exibe recortes de jornais. O material de arquivo assume a função explícita de “documentos”, ou “comprovantes” das informações veiculadas. Por sua vez, na célebre entrevista em que Oscar Niemeyer indispõe-se com Vladimir e manda interromper a filmagem, o drama contido na investigação histórica se revela de maneira inequívoca diante da câmera.
O filme é polifônico e dialético. Seqüências inteiras se organizam a partir da ressignificação de cenas de arquivo segundo um determinado raciocínio proposto pelo diretor a partir de sua crítica das diferenças de classe. Com freqüência, essas cenas nos chegam subordinadas ao discurso dos peões e, portanto, esvaziadas do sentido oficial que possuíam originalmente. As primeiras imagens da inauguração da cidade, por exemplo, surgem em seguida à entrevista com o primeiro padeiro de Brasília, que não viu a festa porque estava trabalhando (e, além do mais, viria a ficar cego após um acidente). A solenidade aparece como que para restabelecer o que fora negado ao trabalhador.
Assim, Conterrâneos assume também os papéis de crônica do destino dos ex-candangos e meditação sobre o sentimento de exílio. Evocando o estilo da prosódia nordestina, o filme abre espaço tanto para entrevistas e depoimentos, como para poesia, cantoria e contação de “causos”.
Como em toda a obra de Vladimir Carvalho, aqui também o combustível é o afeto do realizador pelos seus personagens.
*Crítico e pesquisador de cinema, autor de livros sobre Walter Lima Jr., Eduardo Coutinho, Carla Camurati, Jorge Bodanzky e Maurice Capovilla. Crítico de O Globo, do site criticos.com.br e autor do DocBlog / Globo Online.
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