domingo, 18 de setembro de 2011

FRANCISCO BRENNAND


Francisco Brennand inicia sua carreira como pintor e escultor no fim da década de 1940. Em seus quadros, pinta flores e frutos que parecem flutuar no espaço pictórico, realizados com linhas simplificadas e cores puras. Posteriormente, descobre seu meio de expressão na cerâmica, incentivado por obras de Pablo Picasso (1881 - 1973), Joán Miró (1893 - 1983) e Léger (1881 - 1955), que conhece durante uma estada em Paris. Em 1971, reforma a fábrica de cerâmica de seu pai, próxima a Recife, então quase abandonada, transformando-a em um ateliê, que povoa de seres fantásticos, representados em relevos, painéis, objetos cerâmicos e esculturas.
O artista trabalha a cerâmica não só com a forma mas também com a cor. Obtém uma grande quantidade de tonalidades por meio das variações de temperatura que atuam sobre os pigmentos durante a queima das peças.
As esculturas de Brennand apresentam o caráter de tótens, ou se relacionam a signos da tradição popular. Em muitas obras, apresenta criaturas aterradoras, monstros, seres deformados ou que revelam um caráter trágico. Algumas esculturas estão ligadas a rituais de fertilidade, de culturas arcaicas, apresentando um caráter fortemente sexual. Produz figuras que freqüentemente têm um aspecto trágico, cuja estranheza é acentuada pelo acabamento rude.


Críticas



"Nós nordestinos, nos preocupamos em sermos fiéis à terra, aos mitos, às histórias, às formas e cores da região. Não nos damos por satisfeitos senão quando sentimos que tais coisas estão agredindo os outros à primeira vista, de dentro de nossas obras. Em Francisco Brennand, porém, não existe esta ânsia. Ele absolutamente não se preocupa em verificar se o que está fazendo no momento corresponde ou não ao mundo que o cerca, se está ou não em conformidade com o seu tempo. Aqui, adota uma linha vista num jarro persa, ali se inspira num desenho renascentista, acolá num friso grego ou medieval. O fato é que o Brasil e o Nordeste são exatamente os herdeiros legítimos da tradição ocidental, latina, barroca, luxuriante da cultura mediterrânea. E como ele ao mesmo tempo absorve naturalmente tudo aquilo que o redeia, o resultado é que sua obra é a mais universal e a mais fiel à terra de quantas já saíram do Nordeste".
Ariano Suassuna
FERRAZ, Marilourdes. Oficina cerâmica Francisco Brennand: usina de sonhos. Recife: AIP, 1997.


"É irresistível qualificar essas esculturas de totêmicas. Aliás, na linha da qualificação, poderíamos dizer que essa obra é filha do surrealismo, da metafísica e do fantástico. E essa rotulação não nos ajudaria a entender melhor o artista, a sua obra e de que maneira essa obra nos fala de nossas intuições. Pois se trata disto, do desvendamento de um mundo interior, de percepções submersas, de memórias e emoções, até então, para sempre soterradas. (...) É evidente que a obra de Francisco Brennand não trata apenas da estética. Esse valor, de uma maneira ou de outra, serve, também, de referência para essas obras. É uma maneira de observar, elemento de sinalização, ponte de entendimento. Mas não o principal desta obra, que não caminha por linhas retas, não se desenvolve historicamente em relação a si mesma, não tem a preocupação da coerência ou do diálogo imediato com o público".
Jacob Klintowitz
KLINTOWITZ, Jacob. Brennand e os seres de fogo. In: ______. Os Novos viajantes. São Paulo: Sesc, 1993.


"Sua obra, somando cerâmica e pintura, jamais deixou de identificar-se com a origem nordestina - o toque e o cheiro da terra, as emanações de imagens que ali afloram, realidade e fantasia coletivas, coisas de toda a gente. Mas, nem de longe um ´ingênuo´, ele se situa entre os que exigem de si mesmos o conhecimento constante das motivações de cada recurso utilizado, sondando avanços, policiando o acordo de rudeza e refinamento. Não será errado perceber nele, e na sua obra, uma nova manifestação do elo típico entre a casa-grande e a senzala, que a estrutura social do Nordeste transpôs inevitavelmente à seara da arte. A fonte popular vale, portanto, como a seiva de que se alimenta o fidalgo Brennand. (O dado aristocrático, de nobiliarquia assumida, marcou o Movimento Armorial, um paralelo à escola pernambucana de pintura, de que ele também foi pilar. ) Aproveita dela certas constantes essenciais, como a ânsia de exorcizar o real pela investigação do imaginoso, a reinvenção da natureza próxima segundo uma flora e uma fauna fantásticas, a insistência no épico de heroísmos simples, a fusão de amor e morte sagrando o cotidiano num mar de forças primordiais. De início, até meados da década de 60, houve no que ele produziu uma tendência ao narrativo, quase irmanado à literatura de cordel, de colorido franco e humor frequente. Depois, e ainda hoje, passaram a predominar os elementos da fauna e da flora, isolados ou mesclados".
Roberto Pontual
PONTUAL, Roberto. Entre dois séculos: arte brasileira do século XX na coleção Gilberto Chateaubriand. Rio de Janeiro: Jornal do Brasil, 1987.

ASSISTA ENTREVISTA COM FRANCISCO BRENNA

FONTE: ENCICLOPÉDIA ITAÚ CULTURAL DE ARTES VISUAIS


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